AEROGERADORES EM FIM DE VIDA: Que futuro?

 

Um artigo IEP por Modesto de Morais e Liliana Alves na revista “O instalador”:

Existe em Portugal um conjunto considerável de turbinas eólicas com uma potência total que supera os 5GW. Isto foi possível por via de um esforço concertado entre o reforço das políticas para o setor das energias renováveis, a existência de investidores disponíveis e a suficiente maturidade da tecnologia eólica. Esta iniciativa tornou possível melhorar consideravelmente a nossa independência energética face ao exterior, bem como nos garantiu uma economia um pouco mais sustentável. Entretanto, as políticas de incentivo ao desenvolvimento das energias renováveis intermitentes foram progressivamente reorientadas e agora têm o seu foco mais no sector fotovoltaico, deixando o setor eólico sem uma estratégia de desenvolvimento muito clara. Isto, apesar do período de tarifas bonificadas para a injeção na rede, dedicadas aos parques eólicos existentes, terem sido estendidas por mais alguns anos.

No setor da energia já não restam dúvidas de que, se desejamos intensificar a descarbonização da economia (e esta é a orientação da União Europeia), a produção de eletricidade com origem eólica e fotovoltaica é absolutamente necessária e essas duas fontes renováveis constituem complementaridade num mix energético diário. Mas, num mercado com rateio constante dos preços por megawatt hora entre as várias fontes de produção de eletricidade, o setor fotovoltaico está a conseguir preços não subsidiados muito mais competitivo do que o eólico, permitindo-lhe disponibilizar toda a sua energia nas horas de maior procura e afastando assim o eólico para as franjas noturnas nas quais a procura por energia elétrica é também menor. Desta forma, mesmo que, para desenvolvimento futuro, os parques eólicos se tornem mais competitivos, por força da redução das incertezas nos seus modelos de negócio (face ao que existia há 10 anos) e também porque os novos aerogeradores apresentarão melhor rendimento eólico, esta tecnologia terá alguma dificuldade em sobreviver sem uma política de subsidiação que garanta o necessário equilíbrio entre os vários atores de mercado. Efetivamente, se desejamos continuar a desenvolver um mix energético estável, resiliente e ambientalmente sustentável, não poderemos nunca dispensar o sector eólico.

Face ao exposto e porque as máquinas eólicas em operação, no final do seu período de vida útil (20 anos) já estarão totalmente amortizadas, estando muitas delas em razoáveis condições de operação, será natural que os operadores optem por uma política de contenção e forcem a utilização desses mesmo aerogeradores por mais alguns anos, desde que seja possível opera-los em condições de segurança.


Figura 1: Apresentação dos parques eólicos existentes em Portugal distribuídos por idade.

Na figura 1 podemos ver a distribuição de parques eólicos em Portugal, para os quais é apresentada a sua idade em finais de 2018. Do total desses parques cerca de 72% já estão em operação há mais de 10. Se, numa situação hipotética, não for tomada qualquer iniciativa para mitigar o envelhecimento desses mesmos parques, como podemos ver na figura 2, em 2030 estarão fora de operação mais de 70% dos parques agora existentes.


Figura 2: Evolução do decaimento da disponibilidade de parques eólicos no mercado da energia em Portugal.

Sem dúvida que, para além dos aspetos político-económicos já salientados, a extensão da vida útil dos aerogeradores comporta em si mesmo um caracter ambiental (3R), pois estaremos a usar durante mais tempo um recurso, o que consequentemente implica que estaremos a reduzir a emissão de resíduos e a reutilizar esse mesmo recurso.

Em tom de conclusão gostaria de dizer que é urgente existir uma melhor definição e maior racionalidade nas políticas de incentivo ao desenvolvimento do setor energético como um todo e em especial no que concerne à produção de energia renovável em grande escala como é caso do setor eólico. É fundamental eliminar o ruído que paira na comunicação social sobre a subsidiação do setor eólico, pois esses incentivos financeiros continuarão a ser necessários, se pretendemos manter o equilíbrio na oferta face às limitações e virtudes de cada uma das formas de produção de energia elétrica renovável. Nenhuma das formas de energia renovável (vento, sol, biomassa, ondas, etc.), por si só, garante a necessária estabilidade e segurança no fornecimento de energia elétrica.

Os processos de extensão de vida útil dos aerogeradores constitui-se como uma ferramenta útil, tanto do ponto de vista económico como ambiental. Este ainda é um processo em fase de desenvolvimento embrionário e que por isso ainda carece de bastante trabalho de investigação e desenvolvimento para se encontrarem ferramentas de avaliação expeditas e é necessário construir uma acervo normativo internacional que permita estabelecer uma base de trabalho comum para os organismos técnicos que estarão envolvidos no processo.

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