A problemática do Isolamento Equivalente à Classe II de Isolamento em Quadros de Colunas/Quadros de Centralização de Contagem

Em artigo publicado na revista “O instalador”, Anselmo Martins, Técnico de Inspeções do IEP falanos sobre “A problemática do Isolamento Equivalente à Classe II de Isolamento em Quadros de Colunas/Quadros de Centralização de Contagem”.

Antes da entrada em vigor da Portaria 949-A/2006, de 11 de Setembro, que aprovou as Regras Técnicas das Instalações Elétricas de Baixa Tensão (RTIEBT), verificava-se que os quadros de colunas e os quadros de centralização de contagem eram quase na sua totalidade constituídos por invólucros metálicos e da classe I de isolamento, existindo a possibilidade do invólucro metálico do quadro ficar sob tensão e, em consequência, provocar eletrocussão, porque não existe proteção diferencial nas instalações coletivas que coloque o quadro fora de tensão. Este problema foi resolvido, na prática, com a implementação de novas medidas de segurança.

Com a entrada em vigor da referida Portaria, todos os equipamentos utilizados nas instalações coletivas passaram a ser obrigatoriamente da classe II de isolamento ou equivalente de acordo com o definido na secção 803.2.2 das Regras Técnicas das Instalações Eléctricas de Baixa Tensão.

Os fabricantes tiveram, assim, de adaptar o seu processo produtivo face aos novos requisitos. É claro que modificar todo um processo que se baseava numa construção metálica do quadro para uma em material isolante, não é simples e traz enormes custos de investimento. O que acabou por acontecer nos inícios da entrada em vigor desta nova legislação, e que hoje em dia ainda se verifica, foi adaptar os quadros da classe I que anteriormente se fabricavam, por uns com isolamento equivalente à classe II com invólucro metálico. Hoje em dia, a maioria das empresas já mudou o seu processo produtivo e apenas fabrica quadros da classe II de isolamento com invólucro isolante. Esperemos que em breve sejam todas.

Voltando agora a esta problemática, na fabricação dos quadros com isolamento equivalente à classe II e com invólucro metálico, basicamente o que foi modificado em relação aos quadros da classe I, foi a instalação de isoladores com uma espessura ≥20mm sobre os suportes que fixam todas as partes ativas, e o condutor de protecção dos quadros, de forma que o invólucro do quadro não pudesse ficar sob um qualquer potencial ficando, assim, o invólucro isolado de todo o equipamento instalado no seu interior. Este tipo de proteção por isolamento suplementar é permitido pelo processo B-situação 3b, do Anexo I das Regras Técnicas de Instalações Elétricas de Baixa Tensão.

É claro que estes quadros são montados em fábrica e trazem consigo o respetivo certificado de conformidade. O problema surge muitas vezes depois, na instalação.

Quando o quadro é instalado no edifício, é necessário efetuar a ligação da alimentação da Rede de Distribuição de Energia Elétrica nos terminais do corte geral do quadro e a ligação das canalizações de saída que alimentam a(s) coluna(s) montante(s) e/ou as instalação(ões) diretamente alimentada(s) pelo quadro na(s) caixa(s) de proteção(ões) de saída(s).

Ao longo de vários anos a desempenhar a função de Inspetor de Instalações Elétricas no Instituto Eletrotécnico Português (Entidade Inspetora de Instalações Elétricas-EIIEL), fui constatando que na maioria das vezes existe adulteração da classe de isolamento do quadro devido à má execução dessas ligações. Poderei afirmar que 80% das canalizações são efetuadas com condutores com apenas um isolamento (condutor H07V) e as restantes 20% são efetuadas a cabo.

As ligações num quadro de colunas/quadro de centralização de contagem estão sujeitas a diversos intervenientes, desde o Técnico Responsável pela instalação elétrica que o instala e liga as canalizações de saída e de entrada no corte geral caso o edifício seja dotado de portinhola, o Empreiteiro ao serviço do Operador de Rede para a execução do ramal, caso não exista portinhola, e que é responsável por efectuar a ligação do cabo nos terminais do corte geral do quadro e, por fim, o prestador de serviço do Operador de Rede que é responsável pela colocação do equipamento de contagem no caso de estar instalado um quadro de centralização de contagem.

O trabalho realizado pelo Técnico Responsável pela instalação elétrica será validado aquando da certificação da instalação coletiva. É assim garantido que não existe adulteração da classe de isolamento inicial do quadro em todas a ligações efetuadas. O problema poderá existir nas remodelações de instalações e que não são alvo de certificação.

O trabalho realizado pelo Empreiteiro ao serviço do Operador de Rede apenas será validado caso o ramal já se encontre executado aquando da certificação da instalação coletiva, caso contrário jamais será validado podendo existir o risco de adulteração da classe de isolamento inicial do quadro.

O trabalho realizado pelo Prestador de Serviço do Operador de Rede pode ser verificado no âmbito da execução das Auditorias do Tipo 4 que o Instituto Eletrotécnico Português realiza para a EDP Distribuição, no entanto este tipo de auditoria não tem como ponto de verificação a eventual adulteração da classe de isolamento do quadro, pelo que esta verificação, neste momento, é inconsequente.

Sendo assim, o maior problema está sempre nas ligações dos equipamentos de contagem, pois nestes casos não existe nenhum controlo e a quantidade de intervenções num quadro pode chegar às dezenas. Da experiência em terreno, são poucas as ligações que não adulteram a classe de isolamento do quadro. Existem quadros de centralização com 20 ou mais saídas e muitas delas executadas por técnicos diferentes, com diferentes níveis de conhecimentos técnicos, por vezes mesmo desconhecimento.

Os fabricantes, conhecendo os riscos existentes na eletrificação destes quadros em obra, fazem acompanhar o quadro de instruções onde frisam que as ligações das entradas e saídas deverão respeitar os requisitos previstos nas Regras Técnicas de Instalações Elétricas de Baixa Tensão de forma a garantir a classe de isolamento equivalente à classe II e que o último Operador não deverá modificar a estrutura, quer de construção ou eletrificação do produto, sob pena de anular os requisitos mínimos de segurança. Salvaguardam-se assim de uma possível adulteração da classe de isolamento do quadro devido a uma má execução.

Todo este problema não existiria se os quadros fossem da classe II (com invólucro isolante ou da classe equivalente à classe II com o invólucro metálico revestido por uma superfície isolante, nas zonas onde são efetuadas as ligações), conforme previsto no Anexo I das Regras Técnicas de Instalações Elétricas de Baixa Tensão. Como infelizmente isso ainda não acontece, convêm perceber o porquê.

As situações que normalmente encontramos são: condutores ou condutores dos cabos que entretanto foram descarnados para as ligações, dentro das caixas de ligação de saída/caixas de centralização de contagem, de isolamento simples (H07V), que são encostados ao invólucro metálico do quadro ou não garantem um espaçamento ≥20mm. Existe assim a possibilidade de um/vários dos condutores ter o isolamento danificado ou vir a sofrer deterioração podendo colocar o invólucro metálico do quadro com um potencial existindo risco de eletrocussão.

Existem fabricantes que já resolveram estas situações implementando um isolamento pelo interior do quadro nas partes mais suscetíveis de serem adulteradas por intervenção de terceiros e outros que acabaram por construir quadros com invólucro isolante eliminando assim, definitivamente, todos estes perigos.

Penso que num futuro próximo todos os quadros possuirão invólucro isolante, mas enquanto isso não acontece cabe-nos, a nós técnicos, optar pelos equipamentos que nos dão mais garantias no cumprimento da legislação e na segurança das instalações e pessoas.

BIBLIOGRAFIA:

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