Entrevista do Engº Carlos Cardoso

Entrevista do Engº Carlos Cardoso, Presidente do Conselho de Administração do IEP

Entrevista do Engº Carlos Cardoso, Presidente do Conselho de Administração do IEP à Revista “O Instalador” onde fala dos 40 Anos que o IEP completa em 2021, do trabalho do IEP ao longo das últimas quatro décadas mas também do futuro. E não tem dúvidas de que “este novo século XXI será o da eletricidade”

O IEP celebra, em 2021, os 40 anos de existência. Qual a importância desta data para o Instituto e que simbolismo tem para vós?

O IEP tem comemorado sempre os aniversários da sua constituição, simbolizam etapas que se vencem e é simultaneamente uma prova de vitalidade. Isso constitui, para nós, motivo para celebrar com aqueles que nos acompanham nesse percurso e que nos ajudam a vencer essas etapas: os nossos colaboradores, os nossos associados e os nossos clientes. Nos anos em que os aniversários se representam por ‘números redondos’, como são os 40 anos, essa celebração assume um simbolismo especial, porque para além de ser mais um ano que continuamos vivos, foi mais uma década que se venceu. E tendo em conta que, segundo um estudo do Banco de Portugal, a esperança média de vida de uma empresa em Portugal não ultrapassa os 11 anos, é cada vez mais um motivo de orgulho para o IEP conseguir vencer décadas sucessivas, cada vez com melhor saúde organizacional e financeira.

Que balanço fazem destas quatro décadas em que tanto mudou no mercado em Portugal, com o natural desenvolvimento tecnológico ?

A evolução que ocorreu nas últimas quatro décadas em Portugal foi uma conjugação da revolução tecnológica com uma profunda alteração da estrutura económica, em grande medida resultante da entrada do nosso país no mercado único europeu. Os desafios foram enormes, tanto a nível tecnológico como no que se refere à formação e à qualificação das pessoas, a todos os níveis das organizações.

A indústria que hoje existe em Portugal tem muito pouco a ver com aquela que existia há 40 anos. Passámos de um mercado fechado e tecnicamente pouco exigente para um mercado global e fortemente competitivo, no qual apenas os melhores sobrevivem. Isso notou-se claramente na evolução da nossa indústria: muitas empresas, algumas até de grande dimensão, não aguentaram o embate destes novos tempos e acabaram por sucumbir. Outras conseguiram reinventar-se, tanto tecnologicamente como nos seus modelos de gestão, e hoje ‘dão cartas’ a nível global. Há também um número muito substancial de empresas que surgiram nestas últimas décadas, com uma vocação fortemente tecnológica e inovadora e que desempenham um papel cada vez mais relevante na nossa economia.

Muitas dessas empresas, tanto as que se reinventaram como as que surgiram mais recentemente, têm contado com o apoio do IEP para mais facilmente poderem entrar nos mercados internacionais, assegurando que as inovações que oferecem ao mercado cumprem as normas técnicas de cada país ou bloco económico. Normas essas que estão elas próprias em constante atualização e são cada vez mais exigentes.

Fale-me um pouco da história do IEP, onde começou e onde se posiciona hoje.

O IEP resultou da conjugação de um conjunto de necessidades e de interesses da indústria elétrica nacional, no sentido de haver uma resposta à problemática da normalização eletrotécnica. A criação do Instituto foi um processo longo, que teve vários avanços e recuos, acabando a sua constituição por se concretizar em 28 de setembro de 1981, no Porto, tendo como associados fundadores a ANIMEE, a EDP (então uma empresa pública) e os CTT (também uma empresa pública, que na época detinha a maior parte das telecomunicações nacionais).

Nos primeiros anos, a atividade do IEP esteve limitada à normalização, com base num protocolo celebrado com a então Direção Geral da Qualidade (à qual viria a suceder o Instituto Português da Qualidade). A partir de 1986 inicia-se a atividade de certificação de produtos, o que pôs desde logo em destaque a enorme lacuna que existia no país em termos de laboratórios de ensaio independentes. Inicia-se então um ambicioso projeto para a criação de um conjunto de laboratórios de ensaio, o que viria a ter como consequência a mudança de instalações para Matosinhos, onde atualmente se localiza a sua sede.

Nesse novo local foram construídos diversos laboratórios, que viriam pouco tempo depois a conseguir as acreditações nacionais (à época, pelo IPQ) e europeias, no âmbito dos acordos do CENELEC para a certificação de produtos. Portugal passava, assim, a dispor de uma infraestrutura moderna para ensaios de certificação, ao nível do que de melhor existia na Europa.

O crescimento das atividades do IEP, o reconhecimento público da sua capacidade técnica e a evolução legislativa que entretanto ocorreu, conduziram o Instituto a dar o seu grande passo seguinte, que foi iniciar a atividade como Organismo de Inspeção, inicialmente para Elevadores e algum tempo depois para Instalações Elétricas.

Hoje em dia o IEP lidera um grupo constituído por diversas empresas, estando presente na generalidade dos setores tecnológicos. Da eletricidade ao gás e aos petróleos, da metrologia ao ambiente, da saúde aos transportes, não existe nenhum setor de atividade económica ao qual o IEP ou as suas participadas não disponibilizem serviços. Sempre com inovação, com competência e com qualidade.

Como tem lidado o IEP, no âmbito da sua atividade, com esta pandemia? Que reinvenções fez?

Uma das grandes preocupações que o IEP tem, desde sempre, é com a segurança. Segurança dos produtos e das instalações que avalia, mas sobretudo segurança das pessoas. Diria mesmo que isso é intrínseco à própria natureza das suas atividades. A preocupação com a segurança e com a saúde, física e psíquica, de todas as pessoas que diariamente dão o seu melhor a esta instituição e teve necessariamente reflexos na forma como abordámos a pandemia, desde os primeiros sinais de que tinha chegado ao nosso país. Antes mesmo das determinações governamentais sobre a matéria, o IEP reorganizou os seus espaços de trabalho, disponibilizou os mais diversos tipos de materiais de proteção individual a todos os seus colaboradores, tanto aos que trabalham nas suas instalações como às muitas dezenas de técnicos que diariamente percorrem o país para efetuar ensaios e inspeções.

O desfasamento dos horários no trabalho presencial, ou o recurso ao teletrabalho sempre que possível, com a disponibilização das mais diversas ferramentas de colaboração remota e com o contacto permanente das chefias com as suas equipas, são apenas dois exemplos. Zoom, Skype e Teams passaram a ser termos de uso corrente nos diversos níveis da organização. As atividades do IEP nunca pararam, com exceções no primeiro confinamento, determinadas pelo Governo. Conseguiu-se manter e até reforçar o espírito de grupo, comprovando-se que é nas grandes dificuldades que se revelam as grandes equipas.

O IEP presta serviços em várias áreas, como a inspeção, os ensaios, mas também em formação. Fale-me um pouco desta atividade e da sua importância no que respeita à qualidade das certificações.

Relativamente às atividades de inspeção e de ensaios, incluindo aqui as calibrações, já nos referimos ao abordar a história do IEP.No que se refere à formação, esta surgiu no IEP como uma consequência das suas atividades de apoio à indústria. No decurso dos inúmeros contactos que mantínhamos com os clientes, fomo-nos apercebendo de lacunas importantes na formação dos seus colaboradores, em domínios nos quais o IEP detinha competências mas que não se encontravam cobertos pelos sistemas de ensino e de formação profissional. Foi assim que, em 1992, o Instituto criou um departamento vocacionado para promover ações de formação em áreas como a Qualidade ou a Metrologia, com ofertas inovadoras, como foram algumas das pós-graduações que organizou em colaboração com várias universidades e que tiveram um sucesso assinalável. Essa atividade continuou a desenvolver-se até aos dias de hoje e a marca IEP constitui atualmente uma referência também no que se refere à formação.

Hoje em dia é inquestionável que a formação, muito mais do que ser uma exigência legal, é uma necessidade para as empresas que querem permanecer no mercado, para poderem acompanhar a evolução tecnológica, para conceberem soluções inovadoras e que respeitem as regras legais e normativas em matérias como a segurança, a eficiência ou o ambiente.

Um aspeto em que a importância da formação para a atividade das empresas fica bem patente é no número de não-conformidades em produtos ensaiados e de reprovações de instalações inspecionadas. Ao longo dos anos, graças às muitas horas de formação que têm vindo a ser ministradas pelo IEP, tais problemas têm diminuído claramente e de forma muito consistente.

Por onde passa o futuro da instituição e que marca, na sua opinião, já deixou no país?

Começando pelo final da pergunta, é nossa firme convicção que o IEP tem já uma marca consolidada no panorama da economia nacional. Conseguimos superar desafios e alcançar metas que muitos julgavam impossíveis, para o que muito contribuiu o forte espírito de equipa que sempre tem imperado na nossa organização. Conseguimos, em tempo recorde, criar e acreditar laboratórios que permitiram que Portugal aderisse aos acordos europeus de reconhecimento mútuo. Revolucionámos o panorama das instalações elétricas no país, potenciando a clara melhoria qualitativa do nível de segurança dessas instalações. Ajudámos empresas industriais a evoluir da simples cópia creativa de produtos de fabricantes estrangeiros para empresas inovadoras e reconhecidas a nível internacional.

O futuro desta instituição passa, por isso, por manter o rumo de apoio à indústria, fazendo com que Portugal seja cada vez mais uma referência internacional nos segmentos de mercado envolvidos, tanto pela capacidade inovadora das empresas como pela elevada qualidade e pela competitividade dos seus produtos. A atual pandemia fez com que muitos decisores políticos e empresariais percebessem a importância de se ter uma indústria forte, competitiva e inovadora. O “momentum” assim gerado vai certamente manter-se e vai levar ao reforça das capacidades industriais do nosso país. O IEP vai ser, sempre e cada vez mais, a infraestrutura que assegura o apoio tecnológico a essas empresas.

A inovação é outro marco distintivo do IEP. Na área eletrotécnica, em que é que a inovação tem permitido melhorar o crescimento das empresas e de que forma o IEP tem ajudado nesta matéria?

O século XX ficou conhecido como o século do petróleo, mas este novo século XXI será o da da eletricidade. Todas as grandes inovações tecnológicas passaram a depender da energia elétrica, e mais tarde dos seus diversos ramos especializados, como as telecomunicações, a informática ou a automação. O mundo que hoje conhecemos não seria possível sem as inúmeras inovações que têm sido proporcionadas pela eletrotecnia, da mesma forma que a generalidade das empresas não conseguiria crescer e expandir-se se não tivesse uma preocupação permanente com a inovação nos seus produtos, nos seus processos e nos seus modelos de gestão.

O IEP tem apoiado numerosas empresas do setor eletrotécnico nessa ambição de crescimento por via da inovação. O apoio ao nível da formação e da consultoria tem acompanhado a par e passo o suporte tecnológico que é parte indissociável dos ensaios feitos aos novos produtos. Inovar é essencial para crescer e para continuar a competir e isso tanto se aplica às empresas que são clientes do IEP como ao próprio Instituto. Dessa forma criam-se parcerias que são verdadeiramente ganhadoras para ambas as partes, como o atesta a longevidade da colaboração com muitas empresas do setor eletrotécnico que desde há muitos anos recorrem ao IEP sempre que têm em mãos novos projetos.

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Gostava que me falasse também um pouco do Laboratório de Metrologia e Ensaios do IEP, que, segundo sei, é também decisivo para o IEP.

Como anteriormente se referiu, a decisão de criar no IEP laboratórios de ensaio resultou de uma necessidade premente identificada no nosso país. Tal decisão estratégica viria a revelar-se fundamental para o desenvolvimento e para o futuro do Instituto. Sem esses laboratórios, dificilmente o IEP lograria atingir os patamares de reconhecimento e de excelência que viria a ter nas diversas áreas em que atua.

Inicialmente vocacionados para certificar os produtos que eram oferecidos pela indústria da época, como eletrodomésticos ou aparelhagem para instalações de baixa tensão, esses laboratórios desenvolveram-se e ampliaram imenso as suas áreas de competência. Foi assim que se criou o primeiro laboratório independente em Portugal para a calibração de equipamentos de medição elétricos. Foi assim que surgiu o primeiro laboratório de fibras óticas, que é ainda hoje na Península Ibérica o único laboratório independente nesse âmbito. Assim se avançou para o domínio das radio-interferências, hoje compatibilidade eletromagnética, e para a segurança de equipamentos eletrónicos e de tecnologias de informação. Foi esse o mesmo espírito que levou o IEP a ser pioneiro também na eficiência energética, construindo o primeiro laboratório (e até agora único na Península Ibérica) a ser acreditado para ensaios de equipamentos de refrigeração profissional.

Estes laboratórios, pelas suas competências avançadas e que em muitos casos são únicas em Portugal, constituem assim o ‘ex libris’ do IEP e representam muitas vezes a primeira abordagem dos clientes ao Instituto, abrindo caminho à colaboração em numerosas outras áreas.

A nível da Internacionalização, em que se consubstancia também esta área para vós? E projetos? Como tem o IEP ajudado as empresas a promoverem-se além-fronteiras?

O apoio do IEP à internacionalização das empresas suas clientes acontece a vários níveis. Desde logo, pelo apoio normativo e regulamentar, ajudando essas empresas a cumprir os requisitos que são exigidos pelos diversos mercados de exportação e que variam muito de país para país. Isso é complementado pela realização de ensaios, nos quais são tidos em conta os desvios nacionais, isto é, as especificidades técnicas de cada país, e que precisam de ser considerados logo desde a conceção dos produtos.Outro tipo de apoio à internacionalização tem consistido em colocar empresas nacionais em contacto com potenciais clientes de outros países. Isso tem sido concretizado por via de missões empresariais e pela participação conjunta nas feiras temáticas mais relevantes para cada tipo de indústria, como sejam os equipamentos para o setor alimentar e da hotelaria, ou os equipamentos para iluminação e decoração.

Graças a esse apoio, muitas empresas nacionais perderam o receio de se internacionalizar e fizeram os seus primeiros negócios além-fronteiras na companhia do IEP. Casos há em que esses negócios têm tido tanto sucesso que as empresas em causa tiveram necessidade de expandir as suas unidades industriais para conseguirem dar resposta ao acréscimo de encomendas.

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Finalmente, que desafios tem hoje o IEP pela frente e onde tenciona estar nos próximos 40 anos?

Os desafios que se perspetivam são os que resultam da crescente consciencialização das empresas e dos cidadãos em geral com o ambiente (com realce para o Pacto Ecológico Europeu, ou ‘Green Deal’), com a energia e a eficiência energética, com a sustentabilidade dos recursos materiais e o ‘eco design’, com a segurança nas suas várias vertentes (e em particular com a cibersegurança).

É obviamente impossível prevermos como vai ser o mundo dentro de 40 anos. Mas quaisquer que sejam as tendências tecnológicas da indústria e dos mercados, vamos continuar a trabalhar todos os dias para que o IEP continue a ser o parceiro preferencial das empresas nacionais, seja na avaliação da conformidade, seja na inovação tecnológica.

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