Mobilidade elétrica: outros desafios

Por Gil Maltez, Responsável pela área de Eletricidade do IEP

Hoje em dia já é fácil encontrarmos um veículo elétrico, deparamo-nos com inúmeros exemplos, desde o automóvel ao motociclo passando pelo ciclomotor, soluções hibridas, plug-in ou 100% elétricos, o denominador comum parece ser cada vez mais a ausência dos combustíveis fósseis e de motores a combustão, por isso a mobilidade elétrica é de facto uma realidade, não faz apenas parte do futuro e torna-se cada vez mais um elemento do presente.

O que proponho neste artigo é apresentar três exemplos de desafios tecnológicos que rapidamente farão parte do nosso quotidiano.

  • Carregamento de veículos elétricos por indução.
  • Baterias não inflamáveis, nova tecnologia.
  • Motores elétricos instalados nas rodas.

Carregamento de veículos elétricos por indução.

Embora no panorama nacional não seja ainda aplicável, o carregamento por indução nos automóveis elétricos já é uma realidade.

Este sistema está disponível em países como, os Estados Unidos, Japão, China, Alemanha e Reino Unido.

E em Portugal o que falta fazer?

Primeiro é necessário regulamentar estes sistemas, a legislação atual é completamente omissa face a esta tecnologia, nomeadamente nos requisitos técnicos para o efeito, assim prevê-se a necessária alteração à Portaria n.º 252/2015 de 19 de agosto, (secção 722 das RTIEBT – Regras Técnicas de Instalações Elétricas de Baixa Tensão).

Por outro lado, será necessário implementar ações de formação, quer para os técnicos executantes, quer para a área comercial, para que o sistema possa deixar de ser uma tendência e passe a ser uma viabilidade.

O principal desafio está, portanto, na atualização legislativa e regulamentar abrindo ao mercado à possibilidade de massificar esta ideia.

Como funciona?

A solução consiste numa placa/base ligada à rede elétrica e instalada no pavimento, essa placa emite campos magnéticos de alta frequência para um recetor incluído no automóvel, a corrente elétrica induzida pelo recetor do automóvel carrega a bateria de alta voltagem. O sistema também apelidado de “Wireless Charging” pode ser instalado numa garagem ou na zona exterior de parqueamento. Basta posicionar corretamente o veículo sobre esta placa não sendo necessária qualquer outra intervenção do condutor.

Existem vários sistemas utilizados por reconhecidas marcas automóveis, são exemplos disso potências de carregamento de 3,2 kW, permitindo recuperar a capacidade total da bateria em aproximadamente 3,5 horas e com taxas de eficiência do carregamento de aproximadamente 85%.

Quanto Custa?

Numa fase inicial, esta tecnologia do carregamento por indução poderá ser financeiramente mais dispendiosa que o atual sistema. À medida que a tecnologia se propagar, deverá passar a ser vendida a preços idênticos aos da solução tradicional por cabos.

Sabemos que quem controla os preços são os fabricantes, mas estes também têm dado indicações de que querem que os valores de aquisição dos sistemas de carregamento por indução sejam iguais aos das soluções atuais de plug-in, podendo assim aumentar significativamente a suas vendas. A partir do momento em que exista volume e maturidade suficiente nesta tecnologia, o mais certo é que no futuro não se note qualquer diferença de preço entre as duas formas de carregamento.

O lançamento desta tecnologia em larga escala permitirá tomar medidas e agir em direção à criação das infraestruturas necessárias que tornarão o carregamento de um veículo elétrico (VE) num processo ainda mais simples do que abastecer de combustível um veículo com motor a combustão.

Carregamentos sem fios a realidade dos veículos elétricos não será mais a mesma.

A plataforma de carga pode medir cerca de um metro quadrado, enquanto o recetor, no carro, é colocado num dispositivo menor. A operação pode ser complementada com uma aplicação instalada num qualquer smartphone em que o utilizador consegue alinhar as bobinas. Os sistemas de segurança também foram estudados e o processo pode ser cancelado se algum elemento estranho se interpuser entre os dois pontos.

Baterias não inflamáveis, nova tecnologia.

Mesmo em Portugal a massificação dos veículos elétricos já está a acontecer. Contudo, muitos dos futuros utilizadores, apontam o dedo às baterias, à autonomia e ao tempo de carregamento como sendo os principais fatores no momento de decisão. Os consumidores querem um alcance adequado com uma única carga, um veículo elétrico acessível e de confiança.

A Innolith AG, com sede na Suíça, anunciou que está a desenvolver a primeira bateria recarregável do mundo capaz de alimentar um veículo elétrico por mais de 1000 km com uma única carga. Além das vantagens do baixo custo, devido evitar o uso de materiais exóticos e caros, será a primeira bateria não inflamável à base de lítio para uso em veículos elétricos.

Remove a principal causa dos incêndios de baterias.

Esta bateria usa um eletrólito inorgânico não inflamável, ao contrário das baterias convencionais que usam um eletrólito orgânico inflamável. A mudança para baterias não inflamáveis ​​aumenta a estabilidade química e remove a principal causa dos incêndios de baterias que atingiram os fabricantes de veículos elétricos.

Espera-se que o desenvolvimento e a comercialização deste tipo de bateria demorem entre três e cinco anos.

Motores elétricos instalados nas rodas.

Em Portugal, nos últimos anos tem vindo a aumentar significativamente a venda de veículos elétricos, isto é um sinal forte da aceitação da tecnologia. Os veículos elétricos estão a conquistar as preferências dos consumidores e as empresas desdobram-se para conseguir satisfazer a enorme procura que se tem registado.

O fabrico dos veículos mudou, há alterações profundas nos carros, mas ainda não há uma fórmula fechada e por isso apareceu uma empresa eslovena que fabrica motores elétricos instalados nas rodas.

As vantagens superam os custos, existe viabilidade nesta tecnologia?

Não podemos afirmar que no passado não tivesse já existido quem se tenha dedicado a este assunto, de facto a ideia não é nova, aliás, muitos dos projetos pioneiros e inovadores nesta área tinham essa arquitetura, o motor elétrico introduzido na roda. Devido aos buracos, obstáculos e trepidação nas estradas e pavimentos degradados por onde o veículo circulava, o motor sofria um desgaste enorme. Por isso, esta forma de usar o motor não surtiu grande efeito e afastaram no passado as empresas de pensar seriamente nesta hipótese. Com o melhoramento substancial das infraestruturas rodoviárias talvez se consigam concentrar mais nas reais vantagens desta tecnologia.

Vantagens:

– Redução de espaço, sem motor principal, sem eixos ou caixas de velocidade;

– Mais conforto no habitáculo;

– Motores mais eficientes;

– Maior autonomia;

– Simplificação dos sistemas de controlo, tração e estabilidade;

– Controlo direto do binário ou da resistência em cada roda;

– Mais potência que um motor centralizado, resposta mais dinâmica.

E os próximos anos como serão?

Tudo aponta para um aumento significativo das infraestruturas da rede pública e privada de carregamento de veículos elétricos com a instalação de inúmeros postos/pontos de conexão. O aumento nas vendas destes veículos também tem vindo a subir substancialmente e os preços tenderão naturalmente a baixar. As novas tecnologias como os exemplos atrás referidos, irão com toda a certeza proliferar e outras novas irão surgir. Assistiremos também à chegada de novos modelos de VE com mais autonomia e maior diversidade de preços. A certificação inicial e as inspeções elétricas periódicas são, portanto, uma necessidade e obrigatoriedade cuja legislação atual já o refere. Fazer chegar estas preocupações a um maior e mais diversificado número de pessoas e entidades com peso e responsabilidade no nosso país é o desafio que a todos nós profissionais se coloca. Acreditar que é possível depende de pequenos gestos, mas mais do que falar, é preciso fazer.

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